O meu pai vai morrer

Durante o carnaval telefonei pra casa do meu pai para bater papo – depois de tantas ligações para resolver problemas práticos entre ele e a minha mãe, com a Maria, minha madrasta, de mediadora.

Eu queria saber como iam as coisas. Não que eu estivesse exatamente com saudade, por que há muitos anos não sinto saudades do meu pai. É complicado explicar, mas compara-se a ter saudade de um antigo colega de trabalho que você gostava bastante mas há muito tempo não tem contato – é mais como lembrar com carinho.

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E é isso o que eu sinto pelo meu pai. Um lembrar com carinho de algumas situações, com raiva de outras, com dúvida ou confusão para muitas tantas. E sempre penso, mesmo que sem me ater por muito tempo, em como seria se tudo tivesse sido diferente.

Não que isso seja algo que eu claramente tenha sentido falta, que eu ache que tenha atrapalhado a minha vida, que eu sofra, conscientemente, por não ter tido – mas eu gostaria de saber o que é chegar em casa, da escola, faculdade ou trabalho e poder conversar de maneira adulta com o pai – mesmo que fosse por telefone.

Minha mãe sempre foi totalmente presente na minha vida, em cada momento cumprindo um ou vários papéis como amiga, professora, carrasca, educadora e simplesmente mãe.

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O resumo que posso fazer sobre a convivência que tive com meu pai, é que foi marcada pelo consumismo, pela exuberância e pela confusão emocional que há em se relacionar com uma pessoa que mesclava a excentricidade e a insanidade.

Nunca pude contar com a opinião dele sobre algum assunto sério na minha vida. Nunca pude dividir uma conquista (ou derrota) sem que sua abordagem e análise se tornassem mais importantes que o fato em si. Nunca tive que pedir permissão para ele, pra nada. Nunca tive respeito por ele – até por que nunca as circunstâncias exigiram isso, tamanha a superficialidade da relação.

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Nunca pude dizer que eu tive um pai, apesar de ele ter sido o responsável financeiro por muitas coisas na minha infância e juventude. E apesar de ele ter estado presente em vários momentos, muitos deles legais, claro – mas sempre com mais ênfase na parte financeira do que parte das relações.

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Eram tardes em shoppings comprando roupas, brinquedos, papéis, cadernos, discos e livros. Noites em restaurantes finos (não me lembro de uma única refeição em casa com o meu pai, exceto no Natal). Madrugadas jogando buraco e comendo torradinhas com queijo gorgonzola e foie gras, aos dez anos de idade. Férias em que eu aprendia como se faz uma anamnese e estudava os signos do horóscopo chinês.

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Com tudo isso (ou sem tudo isso), ele foi uma pessoa marcante. É marcante para todos os que o conhecem, como todo excêntrico que se preze. Não dá pra negar.

E é marcante em mim, mesmo que isso esteja submergindo para o meu consciente somente agora, nos últimos tempos, ou nessas últimas frases… e o que marca atualmente, quando eu sei que a morte dele está próxima, é o desejo de ter tido um pai mais presente.

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Não sei se ele entrará em 2007. Pode ser que entre até em 2010. Mas eu já estou preparada para a morte dele. Sei que ela está chegando, só não sei a que velocidade. E eu sei que nada mais dá para ser mudado. Ele, nem se quisesse, poderia ter agora alguma atitude para reverter o quadro, me fazer sentir filha. A limitação agora, além de todas as outras, é física.

E daí quando ele morrer, sei que vou chorar pela “saudade que eu sinto, de tudo que eu ainda não vi”, além de todas aquelas coisas básicas que sentimos quando perdemos alguém.

Mas se até hoje eu consegui viver sem um pai, conseguirei seguir adiante sem o meu pai, pra sempre, ué.

Escrevi este texto em março de 2006.

Em novembro de 2009, durante a escala de um cruzeiro no Rio de Janeiro fui visita-lo. Ele já não levantava da cama. Eu disse a ele que reconheci tudo o que tinha feito por nós como demonstrações de amor, o amor que ele sabia nos dar. Ele disse como uma voz bem fraca que nunca mediu esforços para nos dar o que podia. Eu o abracei, beijei, disse que o amava e fui embora. Não ficou nenhuma raiva. Apenas o desejo de ter tido mais dele, ele, em minha vida.

Em fevereiro de 2010 ele morreu.

E por isso o Rio de Janeiro nunca mais será o mesmo. E o Shopping Iguatemi sempre será o meu preferido. E eu por isso eu amo cadernos. E queijo gorgonzola, foie gras e torradinhas. Tomo água bem gelada. E ando de taxi. E falo bobagens. Porque ele foi meu pai. E eu sou filha dele.

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